sexta-feira, julho 20, 2007

creta


não fiz nem 1/100 das viagens que imaginei fazer quando era criança.

eu, conhecido como o menino dos mapas - em francês, pierre descartes -, imaginei dezenas e dezenas de viagens quando deitado, de barriga colada naquelas línguas de papel colorido que o meu pai foi paulatinamente comprando nas papelarias da baixa.

eram tempos em que digamos, não havia electricidade nas nossas brincadeiras. nem sequer cor havia nos desenhos animados.

olhava para aqueles nomes daqueles locais e ficava fascinado com o que haveria naqueles sítios. que tipo de gentes habitariam aquelas terras.

houve entretanto alguns acontecimentos que fizeram aguçar o meu apetite pelo contacto com esses locais mais remotos: o envio de postais que a minha tia lurdes sempre fazia; um dominó constituído por bandeiras de países e fotos das respectivas capitais; a colecção alfa estudante; o grande atlas das selecções, umas fantásticas aulas do meu quinto ano da faculdade ministradas por um inusitado e brilhante professor portuense, etc, etc

é por causa desses pequenos pormaiores que, sem outra razão aparente, fiquei com vontade de ir à galleria vittorio emanuel II, a siracusa, ao bairro judeu de praga, ao salto del ángel, tanto tanto lugar...

uma vez entrou na oficina dos meus pais um dos seus fornecedores. chamava-se américo, era uma simpatia. curiosamente e sem ninguém combinar isso, a sua visita acontecia por volta do são martinho. numa dessas vezes, vinha com uma novidade, tinha ido à grécia. ihhhhh, grécia. porra, no meu imaginário ninguém ia à grécia. ia-se a badajoz, a ayamonte ou a andorra. à grécia era uma coisa muito para lá. que coisa maravilhosa. eu, do baixo dos meus 5 anos, estava perante alguém que tinha estado em locais diferentes daqueles onde tinham estado todas as pessoas que eu conhecia.

- e onde esteve, senhor américo?
- em creta. conheces?
- não mas vou saber onde é.

e fui, abri o mapa no chão, deitei-me sobre ele e comecei à procura. descobri, era uma ilha. tinha um formato giro.

e desde esse dia que também passei a querer a creta. e estranhamente passei a ligar-me a essa ilha que nem sei se é bonita, se vale a pena a visita, se nada. não sei nada! sei que vejo algumas fotos e fico com uma vontade louca de partir, de lá aterrar e beijar o seu solo como o papa. e noutras vezes fico com medo de afinal aquilo ser só um sonho.

um sonhos desses que vamos tendo.

um sonho de viagens.

ainda assim, ficarei sempre com vontade de partir para lá. ver o que aquilo tem de bom.

(raio do senhor américo. raio de ilha!)

3 comentários:

Anónimo disse...

Olha, eu tenho um fascinio muito especial pelas ilhas do Pacifico: Ilha de Páscoa, Galapagos, Desventurados e Juan Hernandez...
Apesar de nunca ter ido a nenhuma delas.

Cumps

Gonçalves disse...

Informa-te bem, "disserem-me" que é muito bom até Maio. No verão é muito quente, o que para mim é óptimo.
Abraço

Bic Laranja disse...

Meu querido amigo,
Se Creta, que é «uma coisa muito para lá», te inspira este belíssimo texto, então não te preocupes. Vai lá. Quando fores leva um caderninho porque as impressões que nele registares poderão ser admirável literatura.
Tens graça no teu estilo ligeiro, mas quando te perdes por sonhos que vais tendo encontras musas que te erguem ao patamar da Arte.
Abraço!