quinta-feira, dezembro 27, 2007

vida em marte?

há cantores ou grupos que eu sabia (e sei) de antemão que ainda iria gostar deles.

a elis não foi amor à primeira vista, o gonzaguinha também não, a minha mulher foi logo no primeiro olhar, os fleetwood mac quando consegui ouvir o tusk sem tirar, e rendi-me aos eagles quando ouvi o wasted time pela primeira vez.

um velho amigo diz-me, em tom de gozação, que eu ainda chegarei aos king crimson e quem sabe até aos devaneios do rick wakeman. cá estarei para assistir a isso.

o seu jorge chegou aqui há dias. fiquei com a tal sensação que descrevi ali em cima, quando o vi lá na cidade de deus: este gajo tem ali alguma coisa, nah, ainda não chegou a altura dele.

e rendi-me quando o ouvi cantar:
então vem cá, me dá a sua língua
então vem que eu quero abraçar você....

porque alguém que escreve assim, só pode ter nascido no brasil. um português falaria pudicamente em boca ou, quanto muito, em beijo. ai a falta que um jorge amado faz à literatura portuguesa... adiante! gostei, saquei, estou a consumir.

estas versões mais softes das coisinhas do báuí, além de virem com a voz quentinha do seu jorge, estão francamente adocicadas por estas letras francamente lindas.

por falar em versões, ouçam isto com atenção. estão a ouvir, estão? percebem porque é que os nouvelle vague me dão sono (e diarreia)? uma coisa são aquelas cenas dos stones e do marley em ritmo bossa nova. ah e tal, sabe bem ouvir aquilo no verão, com o céu alentejano como tecto, enquanto que a mão transporta um copo de licor de noz estupidamente gelado, do braço da cadeira até à nossa boca. maravilha! outra coisa são os nouvelle vague. que lástima. os nouvelle vague, além de estragarem músicas tão boas como o the killing moon, estão para o panorama musical como o júlio machado vaz está para a televisão e a rádio: ele fala, eu adoeço.


a vinte e quatro??????

em mirandela, um concelho que eu aprendi a chamar também de "minha terra", um juiz decidiu que uma criança tinha de ir para uma casa de acolhimento temporário antes de ser devolvida à mulher que a pariu.

até então, a catraia esteve com um casal que a tratou como filha.

eu já deixei de opinar sobre essas coisas de "quem é que deve ficar com a criança", "quem é que tem o direito", "quem é que afinal é o pai ou a mãe!". já não opino, pronto.

agora uma coisa tenho a certeza, um juiz que pega numa criança de três anos para a colocar lá na casa de acolhimento - antes de ir para a mulher que a pariu, como disse - NO DIA 24 DE DEZEMBRO, não é nem nunca será boa gente. que merda é esta? no dia 24? de dezembro? véspera de natal?

digam-me por favor que o juiz* fez aquilo porque os pais adoptivos a tratavam mal ou coisa parecida, se não dá-me já aqui a travadinha.

* terão estes juízes assim tão grande mérito para serem tratados por meritíssimos?

apesar de tudo...






... há qualquer coisa de transcendente numa consoada realizada sob a parca luz dumas simples e tradicionais velas (apagão no estoril made in edp).

terça-feira, dezembro 25, 2007

mais prendas

há cerca de dez anos o meu sonho era receber meias. sim, repito, meias. e fui anunciando isso ao longo do mês de dezembro:

- pessoal, quero que me ofereçam meias. pessoal, preciso de meias.

nunca ninguém me levou a sério. lá me foram dando coisas do arco da velha, alguns objectos que não lembram ao diabo e que, obviamente, não refiro aqui, com receio de ferir susceptibilidades. e lá tinha eu de ir comprar o raio das meias. são sempre iguais, são sempre as mesmas.

aliás, eu visto sempre as mesmas meias, os mesmos chinelos, as mesmas camisas, os mesmos calções e até as calças, passaram a ser sempre as mesmas, desde que há uns anos, um empregado da levi's do colombo, daqueles que atraca de popa, me disse enquanto me controlava o pacote: chavalo, andas enganado, pá. o teu número é 32/30!

depois desse momento já devo ter comprado uns quatro ou cinco pares sempre do mesmo modelo.

por essa altura, a minha namorada tentava colonizar-me com um tipo de roupa que ela achava ser o mais adequado à minha parva estampa. escusado será dizer que nunca gostei de nenhuma das peças que ela, tão pacientemente comprava. e eu lá tinha de fazer, nos dias seguintes, o caminho doloroso até às zaras e às pulls desta vida, trocar todas aquelas farpelas.

todos os anos é a mesma coisa. estão ali as pessoas a anunciar nomes como quem diz números do bingo e a cada embrulho que pegam nas mãos, eu até tremo de medo, com receio que seja para mim. e depois insistem que tenho de abrir ali, à frente de toda a gente, para ter de fazer aquele meu ar "eh pá, como é que adivinharam que eu (não) preciso mesmo disto (para nada)."

é arrepiante a mania das pessoas oferecer por oferecer. não há nada a fazer. ainda assim, o que me custa mais assistir são mesmo as ofertas de brinquedos às crianças. não há nada a fazer. continuam a matraqueá-las com barbies e mais o diabo a sete.

alguém faz ideia de quanto custa uma vacina? e um pacote de fraldas? arranjem tomates, dediquem-se à prenda útil. e que tal meia mensalidade escolar? juntavam-se dez pessoas, chegavam-se à frente e tunga! quinze dias lá na creche eram à borliú para os pais.

apesar de tudo, continuo a achar que aquela embalagem xpto de audace que o meu pai me ofereceu algures na década de oitenta consegue bater todas as bolas para fora que eu tenho assistido por aí. eu no fundo acho que ele tinha uma secreta esperança que eu virasse "lady piton" e fizesse carreira no trumps

prendas

e apesar das minhas incontáveis insistências, lá teimaram em me oferecer prendas* (ok, amor, foste a única a ouvir as minhas preces, verdade seja dita). lá voltaram a aparecer coisas que não lembram ao diabo e quase sem ter encomendado nada, houve um milagre, dois objectos que servirão para a vida: um espremedor de limões e um vaporizador de vinagre balsâmico.

* tias da minha terra, provem-me porque é se deve dizer presentes em vez de prendas que eu talvez mude de palavra.

ok corral

já li, pelo menos, umas quatro reportagens de fundo, sobre os incidentes ocorridos lá no porto com os bidás da naite.

a pergunta que eu faço é a seguinte: alguém consegue entender que é que estava do lado de quem? quem é que era amigo de quem? por causa de quem é que aquele matou o outro? conseguem, sem recorrer a esquemas desenhados num papelinho de rascunho, seguir o enredo do desenrolar dos acontecimentos?

ou, como eu, perdem-se a meio do caminho e até acham que afinal os matriquesses não são assim tão complicados?

(eu tenho para mim que eles se andam a matar simplesmente porque também eles às tantas, já não sabem quem é que fez mal a quem.)

sábado, dezembro 22, 2007

o que é nacional (nunca) é bom!

vê comigo,

isto não é bem uma "defesa do professor" versus "um ataque à dranquilidade e ao salir a ganar", nada disso. nem um precisa de defesa nem os outros deixaram de fazer coisas para não serem atacados. nada disso.

contrariamente ao que dizes no teu post, não há um único momento em que o jesu deixe de ser educado. olha as declarações dele: fala no penalti que ficou por marcar - e tem razão - mas depois continua as suas declarações sempre no condicional: "... esse lance poderia colocar o fcp em vantagem" (....) "provavelmente o jogo teria sido outro".
repito, ele usa sempre os tempos verbais no condicional.

deixa-me acrescentar mais um trecho das palavras do transmontano: "o fcp criou ocasiões suficientes para ganhar este jogo... falhámos demasiadas ocasiões para podermos aspirar à vitória... não fomos felizes e nem fomos suficientemente esclarecidos na finalização"

irmão, volta a rever as imagens, em nenhum momento ele diz que perdeu por culpa da arbitragem, repito, em nenhum!

em nenhum momento encontro uma falta de coerência. em nenhum momento ele diz que o árbitro influenciou o resultado ou mesmo que o árbitro é isto ou aquilo.

e para finalizar, deixa-me dizer uma coisa: quando o porto é beneficiado pelas arbitragens, nunca o viste dizer que "são lances habituais que servem também para compensar os erros que são cometidos a favor dos nossos adversários". capisce?

por outro lado, é um treinador (ou uma equipa - esta noite) que pode ser "atacada" porque:
- o mariano é francamente um erro de casting.
- eu não quero acreditar - está a custar, está a custar - que o meu clube só tem 12 jogadores. parece que os outros que entram a substituir esses 12 já são duma cepa mais reles, não é?
- e não concordo com o jesualdo quando diz que a equipa criou situações suficientes para marcar. acho que a equipa estava perfeitamente apática e perdia bolas atrás de bolas.
- um jogo em que tive saudades do tarik para mim é uma ofensa. o marroquino é jeitoso. mais do que isso, para mim, é um exagero. e eu acho que até hoje ele fez falta.
- já falei que o mariano não vale grande coisa?
- às vezes fico a pensar na nossa vantagem e imagino: bom, este pontinhos servem para aqueles jogos em que os adversário são melhores que nós. depois, claro, caio na real e lembro-me que não há adversários melhores que nós. há é jogos em que temos mesmo de perder porque sim. porque num campeonato com trinta jornadas, como hoje, há jogos em que não jogamos um caralho. e nesses jogos, perdem-se sempre pontos. se se fizerem muitos jogos desses, é certinho como o destino que também o campeonato vai para o galheiro.
- ai vai, vai!

quinta-feira, dezembro 20, 2007

o ovário da minha quinita

e pronto, ontem lá tive a matar saudades deste memorável chou.

é incrível, parece que estou a ouvir um disco antigo ou a cheirar um perfume que já não usava há muitos anos. estamos a ver aqueles sequeteches e surgem em catadupa memórias da quantidade de vezes que ouvimos (ou dissemos) aquelas frases.

é incrível, ouço aquilo e, num ápice, sou transportado para as mesas da sul-américa, para os senuqueres lá ao pé do padre, para os jantares de fim de ano na (defunta) feira popular, para os copos na esquadra do vitinha lá da rua da rosa.

os trocadilhos, a voz da são josé lapa, o "issé que pods ter a certeza!", as pernas da são josé lapa, o lacerda, o "vá, vá lá, nós queremos é que os nossos concorrentes ganhem", a são josé lapa, "o roy raminho", tudo, está lá tudo. aquilo é o anos de mil novecentos e noventa sem tirar nem pôr.

saudades.

eu por mim, organizo já uma vigília em frente à érre tê pê (eu disse uma vigília? estava a brincar. vá, fico lá prostrado em frente da entrada principal, na parte da relva, entre as 16 e as 18 horas dum dia qualquer a combinar. se possível na primavera) para que seja lançado, assim para não se perder o balanço, o hermanias especial de fim de ano.



muita atenção:
o dvd do crime da pensão estrelinha traz uma entrevista com o mestre que deve ser vista com muuuuuuita atenção. para os que ainda duvidam, acreditem que só quem é muito inteligente, culto, esperto e atento consegue fazer uma comédia transversal, assim, daquele tipo que agrada desde aos ricos até aos pobres ou desde a esquerda até à direita (sem passar pelo bloco ou pelo partido do autedór). são todas elas, características comuns ao herman, ao rap, ao markl, etc...

quarta-feira, dezembro 19, 2007

era um porto italiano, mesmo ao pé das montanhas

realmente não se percebe, um jogador tão bom, tão interessante, uma contratação tão cirúrgica que o benfas tinha feito.

não se percebe, mesmo!

pois é, é uma pena,...

... ninguém ganhou a jogar bonito. a holanda em 88 tinha um jogo realmente muito feio (gulite, ráicard, fan basten, cuman...); a alemanha em 96 a mesma coisa (ésslar, chol, bierófe, ziga, quilinsmane e sá mer - meu deus, este sá mer....); a frança em 2000, então, era uma coisa horrível (turâme, dê zái i, pires, diorcaí éfe, zidane, dê chans, enri, dugarri).

uma lástima, uma lástima...

vrummm

há uma cromice de estrada que eu julgo que tem sido subestimada ao longo destes anos e que merece uma criteriosa atenção.

não, não falo do pessoal que não usa piscas, não me refiro aos que circulam exclusivamente na faixa do meio, muito menos quero chamar a atenção dos que julgam que as rotundas são losangos. eu quero chamar a atenção do pessoal que não sabe que aquele bocadinho de estrada que construíram imediatamente antes e logo depois das saídas e das entradas das auto-estradas se chamam "zonas de aceleração e desaceleração".

ou seja, usam a faixa da direita para fazer esses movimentos em vez de utilizarem essas zonas. um gajo vai ali atrás de um carro, às tantas faz o pisca e sai da estrada, começando a travar, quando dá por ela, o marmelo que seguia à nossa frente, decide sair também ali, fazendo um movimento brusco para a direita - sem piscas nem nada - metendo-se à nossa frente e saindo da sua faixa, dois metros antes da saida da auto-estrada. um mimo.

é como quem diz: "eu começar a travar nas zonas de desaceleração? nahh, isso é para meninos. vou ali na minha faixa e quando estiver ali mesmo junto aos rails, zunga, saio!"

"entrar na auto-estrada e ter de seguir por aquele bocadinho de estrada que lá colocaram para esperarmos a nossa vez? vocês 'stão mazé malucos, pá. eu saio das portagens e vou logo a rasgar, atravessando as três faixas de rodagem até me localizar do lado esquerdo da via que é o meu lugar de eleição. olhar para trás a ver se vem alguém? eles que esperem, porra!"

cotão netes

os cotonetes do continente, aqueles mais baratuchos, têm uma caracterísitica que eu acho ímpar: não têm algodão.

ou então, se têm, eu não dou por isso. só sinto plástico a desentravincalhar-me o tímpano.

aí!!!!!!!!!!

fónix

em vez de phónix, não tinha mais piada chamar-se à nova rede de telefones dos correios: dasse!?

está um valente barbeiro!

a minha avó trindade, transmontana, até ao tutano dizia:

- está frio? mete o cu no rio!

dasse!

(não liguem, também dizia "tens fome? come um homem (óme, no original.)!")

ontem no chópingue...

... uma birra monumental. daquelas beras, com babas e cuspo projectados para as montras, à medida que ela se agitava e esperneava sem parar, tentando fugir do meu colo, em direcção a um livro de pintar que descobriu na fnac.

os olhares dividiam-se:

- os que não tinham filhos e olhavam, com dúvida e indignação, duas ou três vezes para confirmarem se não era mais um gajo que tinha raptado uma criança para redes pedófilas.

- os que tinham, seguramente, filhos e olhavam com pena e aquele olhar "pois, deixa cá ver, dia dezoito. sim, é verdade, hoje calhou a birra àquele gajo. tadito!

eu mantinha a calma. porque é que a calma irrita ainda mais as pessoas do sexo feminino?

pobreza de espírito

cresci rodeado pela pobreza. era assim mesmo.

até ao plano de erradicação de barracas, as traseiras da minha casa tinham vista para a quinta dos embrechados. curiosamente, à excepção dessa mancha na paisagem, é ainda, seguramente, uma das minhas vistas favoritas: os olivais, braço de prata, marvila, xabregas, palmela, alcochete, samouco, barreiro (blhec!) e aquela imensidão do mar da palha.

mas sim, se havia coisa que abundava no meu bairro era a pobreza. e alguns eram, obviamente, meus amigos: andavam na escola comigo, jogavam à bola comigo, compravam o pão na mesma padaria, iam à catequese comigo... vivíamos no mesmo bairro, fazíamos vida de comunidade. o habitual, não é?

não que eu fosse muito rico. nada disso, antes pelo contrário - rico, ah, ah, ah, ah! deixa-me rir - tínhamos as nossas limitações económicas mas nada que me fizesse macaquinhos no sótão.

uma família que nunca teve falta de comida - estamos a falar desde que eu sou vivo, da década de sessenta em diante, digamos - e que ia à marisqueira dos anjos, se calhar, duas vezes por ano, não pode nunca ser considerada de pobre. é certo que ainda sou gozado pelos meus amigos por nunca deixar comida nos pratos dos restaurantes ou por beijar o pão que cai ao chão, mas isso já são outros trezentos.

uma coisa que aquele bairro conhecia de cor e salteado era saber distinguir os pobres mesmo pobres

não lhes gosto de chamar humildes. bem sei que a língua portuguesa acolhe esta palavra com o mesmo significado de pessoa de uma classe social inferior. contudo, uma vez que muitos deles não eram nada humildes - por não conhecerem as suas próprias limitações - e eram bem arrogantes ou armados aos cucos, tenho francas dificuldades em lhes chamar humildes. fiquemos pelos pobres. porque isso, eram mesmo.

de todos os outros.

o meu avô materno costumava pronunciar, perto do final das refeições, "que os pobres mais necessitados do mundo estejam como eu estou agora". era uma forma de desejar barriga cheia a toda a gente. logo ele que soube na pele o que era passar fome e conheceu a pobreza por dentro e por fora.

quem habitava aquele bairro, sabia muito bem que este ou aquele não tinha direito a pequeno-almoço ou a bolo no dia de anos. já nem chamo para aqui outras necessidades básicas como por exemplo o banho, entenda-se. ainda noutro dia estive a ver uma fotografia da minha primeira classe. éramos aí uns doze, quinze alunos. desses, seguramente sete ou oito, nunca se sentiram numa banheira de água até aí aos quinze ou dezoito anos, sem exagero! água quente então, nem sei a que idade passou ela pelo corpo. muito
provavelmente, quando foram treinar ao vitória ou iam aos balneários de chelas.

adiante.

o que eu quero aqui salientar é que ninguém enganava ninguém com a pobreza. havia respeito - salvo parvas excepções - pela condição daquelas pessoas.

é por isso que me custa a evolução do crime, da malandrice, do engano praticado por supostos pobres. tira-me francamente do sério as histórias sobre pessoas que andam a pedir esmola e que depois a utilizam para outro tipo de gastos. fico francamente desiludido e irritado. esse tipo de comportamentos, num bairro tão hermético como a picheleira, era facilmente denunciado e motivo dumas bocas valentes ou dumas chineladas nas trombas.

gozar com quem tira da boca dos filhos para dar aos outros e mesmo assim ser enganado. meus amigos, isso era quase crime de lesa pátria.

por isso, cada vez mais me custa dar esmola. tenho vergonha de a recusar, mas tenho ainda mais medo que seja utilizada para outros fins. é a vida.

o ruizinho decidiu, aí por volta dos quinze ou dezasseis anos, deixar de andar na coboiáda connosco e ser agarrado ao caldo. tudo bem, era com ele. o que não devia era ter-me interpelado numa noite em que se encontrava sentado à porta dos pais - que o tinham posto no olho da rua pela enésima vez - pedindo-me cem paus para uma sandes ou uma sopa. ora, eu que sabia que aquilo seria, seguramente para mais um panfleto ou coisa parecida, disse-lhe para ele ter juízo. o que me tirou do sério foi o facto de ele já nem sequer ter reagido ao que lhe disse. é claro que dez minutos depois, estava novamente junto a ele com dois papo-secos guarnecendo umas costeletas de porco. pelo ar com que devorou aquilo e pelas lágrimas que iam caindo dos olhos, aquele estômago não via outra coisa que não ar, há uns tempos
valentes. em vez de ter ficado contente pela ajuda que lhe dei, fiquei antes irritado. irritava-me ver um gajo que, um par de anos antes andava comigo a tentar engatar uma gaja da mira fernandes, estar cheio de mazelas e completamente obliterado para a vida. fui-me habituando com os outros casos - muitos. alguns que foram parar mais cedo que o costume à quinta das tabuletas - que foram sucedendo ali à volta.

o pedro bucherie, escreveu um valente artigo no sábado, sobre uma família com rendimentos mensais de alguns milhares de euros que recorria à ajuda do banco alimentar para satisfazer a sua fome. ao que parece utilizava o dinheiro para outras necessidades. outras prioridades, não é? bem sei que este exemplo não pode ser confundido com o espírito que norteia o banco alimentar. mas mesmo assim, chateia-me profundamente que a ajuda a esta família, este exemplo relatado, pelos vistos, ainda persista.

saí dum bairro em que todos sabíamos, infelizmente, quem eram os pobres e vim viver para uma zona, presumivelmente "chique". puro engano. não digo que haja tanta pobreza. o que há - e mais do que eu supunha - é uma maior hipocrisia. faz-me francamente confusão ver a prioridade destas pessoas. sei do que falo porque tenho bem próximo de mim (família incluída) - não só daqui desta zona onde resido - pessoas que se queixam da crise e que ostentam exemplos contrários a essa mesma crise.

reparem que eu não digo que são possuidores, eu disse que ostentavam. uma coisa é dizerem que não podem comprar porque não têm dinheiro mas depois, às escondidas, usam-no para comer fuá grá. não, o que eu digo é que dizem que não têm, devem a meio mundo, toda a gente sabe, mas não deixam de se passear de éme xis cinco, envergando pul ouvârs com senhores em cima de cavalos e de taco na mão. cabrões!

uma vez o baixinho - um valente cabrão, diga-se de passagem - estava no meio duma ressaca monumental, interpolou-me ali em frente à loja do nove dedos, dizendo que precisava de uns trocos para comprar pó. recusei, e tentei fugir. ele veio atrás de mim a moer-me o juízo e insistindo, pegou-me da carteira, sacou de lá quinhentos paus e disse que me daria protecção para o resto da vida. eu fiquei tão atónito com aquele roubo - ainda estou para saber porque é me deixei levar por um gajo completamente podre sem sequer reagir - que me calei e segui o meu caminho, fodido, obviamente com aquilo. até porque sabia que era mesmo - ele próprio me disse - para mais um panfleto.

esta semana, entrou-me na loja um gajo que tinha tudo menos um ar ameaçador. pediu-me para falar e explicou - numa linguagem perfeitamente imperceptível - que era búlgaro, que não tinha um tusto e que pretendia ir a sintra pois lhe prometeram um emprego para aquelas bandas. o meu instinto primário foi imediatamente recusar - lá está, é o tal medo dos pobres que não o são e apenas aparentam - e, com efeito recusei. insistiu, realmente num péssimo português - eu só entendia: bulgária, sintra, dinero. o resto era tudo corrido a gestos. fazia-me ali falta o iordanov -, pedindo, por favor, apenas dois euros. depois regateou e disse que só precisava de um euro. continuei a recusar. instintivamente ia recusando. ele lá saiu.

e foi pior a emenda que o soneto. pois, por mais que a história não fosse verdadeira - provavelmente era tanga - ter-lhe entregue um mísero euro, tinha-me deixado com a alma mais descansada. a minha vida não se alteraria rigorosamente nada se eu lhe tivesse dado, um, dois ou até dez euros. mas como recusei, fiquei na mesma na dúvida se ele não me queria dar a boca a mais dinheiro ou ao telemóvel - muito habitual aqui na zona - e fiquei por isso com este peso na consciência. peso que poderia ter aliviado com alguns trocos de trazer no bolso.

estúpido!

é isto que me irrita. esta proliferação de histórias de pessoas que se utilizam da pobreza como método para sacar carcanhol para proveito próprio. tudo bem que se faça humor com os pobres. agora o que eu não admito é que se brinque com a pobreza.

estúpido, na mesma!

terça-feira, dezembro 18, 2007

mea culpa? talvez não.

eu já perguntei neste blog: quando é que o bruno alves sai do clube?

e voltaria repetir. uma das coisas que me aborrece no meu clube é esta mania (às vezes boa) de termos que assistir em campo, e na nossa equipa, à evolução e ao crescimento de um jogador.

mas pronto, por vezes basta surgir-nos um nuno gomes pela frente, uma cabeçada e um castigo, para desatarmos a crescer e a ser homenzinhos. agora aquela parte em que temos de andar ali a stepanoviar enquanto eles não se decidem a justificar titularidades é que é do caneco, não é?

segunda-feira, dezembro 17, 2007

festinha de natal

acabo de chegar vindo da festinha de natal dela.

como sempre, as crianças são uma delícia inatingível.

cá fora, havia biscoitinhos, bebidas, broas, bolo-rei. infelizmente não encontrei por lá, lenços para limparmos as nossas lágrimas.

sou contra!

dá ares.

sou só eu que acho que o friday i'm in love tem muitas coisas do anzol?

(sabes, karla, eu acabo por confundi-las todas. friday i'm in love, just like heaven e até o in between days. até ao the top eles ainda tentavam fazer coisas diferentes umas das outras. do the head on the door em diante, confesso, tenho dificuldade em distinguir as músicas deles. mas deve ser, com certeza, culpa minha. de 85 para a frente desinteressei-me deles.)

uma foto, um bídio

já não é a primeira vez que me detenho em frente à tv enquanto está a dar o friends. um misto de curiosidade e de prazer faz-me ficar ali parado, muitas vezes em pé de comando na mão, a meio caminho entre o "ó paizinho, tira a cuca da banheira, tiras?" e o "podes vesti-la?"

a série é gira. tem francamente piada. confesso que ainda não consigo entender o que raio passou pela cabeça das pessoas que,
aqui há atrasado, decidiram dobrá-la para português e emiti-la como se fosse um desenho animado. é claro que mataram o sucesso da coisa à nascença.

por outro lado, não são só as piadas que me fazem ficar parado. parado, fico normalmente porque também vejo aquilo numa altura em que estou mais cansado. eu reparei foi que por vezes havia um fiozinho de baba que por vezes caía no soalho flutuante.

hoje no google percebi o que era.


é por estas e por outras que eu não percebo porque raio a série se chamava friends e não legs.

juro, não percebo.

minha querida jeni, deixa lá o pitt em paz. podes não ter os marmelos da angelina, mas olha que ela também não tem uns troncos como os teus. e és bem mais gira!

toma lá um bídio, filha.